Enquanto isso, vou brincando



Não é novidade que profissões que envolvem atividades intelectuais podem ser tão ou até mais desgastantes do que profissões que demandam esforço físico. O cansaço mental é uma realidade, e em alguns casos, não é facilmente aliviado nem mesmo com uma boa noite de sono. A profissão de programador, em particular, figura no topo da lista das profissões mais propensas ao burnout, sendo esse um risco enfrentado em busca de certos privilégios. Mas, mesmo após um dia exaustivo, faço questão de dedicar tempo para brincar e dar atenção à Sofia. Isso não é uma tentativa de alimentar meu ego, nem de proclamar para todos ou para mim mesmo o quão bom pai eu sou. Na verdade, é algo que faço por mim mesmo. Não compreendo exatamente quais foram os traumas deixados por meus pais, mas essas reflexões constantes sobre meu relacionamento com Sofia revelam uma preocupação.
Não sei ao certo o que o futuro reserva, e frequentemente me pego pensando em frases como: "Eu sei que uma hora isso vai passar", "Sei que uma hora ela vai me odiar", "Sei que uma hora ela não vai mais me dar atenção" e "Sei que uma hora ela não vai mais querer brincar comigo". Imagino que em algum momento ela possa fechar a porta na minha cara expressando seu ódio, ou até mesmo me achar "cringe" ou qualquer outra palavra que, para ela, represente o equivalente ao vergonha alheia da nossa geração.
Diante dessas incertezas, aproveito cada momento, brincando não apenas por ela, mas também por mim. Não tenho muitos exemplos em mente de filhas que mantêm uma relação amigável e afetuosa com seus pais na fase adulta, talvez por isso meu receio. No entanto, quem sabe eu possa quebrar esse padrão. Até lá, continuo brincando para garantir que nossa relação perdure o máximo que eu conseguir.