Como nossos pais



Há um bom tempo, um trecho de uma música de Belchior me martela na cabeça. A música é “Como nossos pais”, talvez até mais conhecida na belíssima voz de Elis Regina, e o trecho é este:
“Minha dor é perceber Que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo, tudo o que fizemos Ainda somos os mesmos e vivemos Ainda somos os mesmos e vivemos Como os nossos pais.”
Essa música aborda muitas questões, especialmente a luta contra a ditadura militar no Brasil. Porém, o que me martela exatamente nesse trecho é minha interpretação pessoal: muitas vezes tentamos fugir de ser parecidos com nossos pais (ou com um deles), queremos ser melhores, consertar erros, quebrar ciclos, mas acabamos vivendo como eles.
Eu sei que isso não acontece integralmente, pois somos uma junção de tudo e de todos. Porém, aos 33 anos, começo a me enxergar cada vez mais parecido com meu pai.
Um breve resumo da minha história com meu pai:
Até os 10 anos, mais ou menos, tive uma relação de pai e filho totalmente normal, não tão próxima, não tão afastada. Porém, com a separação dos meus pais, essa relação ficou mais distante. Não sei o porquê, tudo é muito nebuloso. Ele é naturalmente uma pessoa mais introspectiva, e eu não posso me considerar a pessoa mais extrovertida do mundo. Isso fez com que nunca houvesse um grande avanço de nenhuma das partes para estreitar o relacionamento. Assim, parte da minha adolescência e parte da minha juventude foram marcadas por eu repetir o mantra: “Quando eu tiver filhos, isso não vai acontecer; não quero ser como ele!”
Você deve estar imaginando para onde este texto está indo. Obviamente, eu não quero nunca me afastar de Sofia, independente do que aconteça. Isso eu sei que não quero! Mas, quando olho para minhas atitudes hoje em dia, relacionadas às demais questões da vida, começo a perceber que muitas características que tenho, e ações que realizo sem sequer pensar, são coisas que ele faria.
Aí vem um plot twist: meu pai tem uma filha mais nova, de outro casamento. E ele é um excelente pai, tanto para ela quanto para o meu outro irmão. Hoje, percebo que, se eu for um pai tão bom quanto ele é para minha irmã, também serei um bom pai.
É claro que não quero repetir os erros. Se eu os perceber, tentarei fazer diferente. Mas a verdade é que não luto mais para ser tão diferente. Acho que agora não luto muito mais para ser muito diferente do que, em essência, eu sou. Espero que aqueles que me acompanham tenham paciência. Este sou eu, e espero não incomodar ninguém.